Quinta, 14 Dez 2017
 
 
Sem caranguejo não tem camarão, robalo, tainha
 
Na primeira quinzena de janeiro um fenômeno chamou a atenção da mídia nacional e mobilizou a população de Bertioga: milhares de caranguejos saíram do manguezal em direção às Praias de Itaguaré e Guaratuba. Numa corrida contra o tempo, pois esses animais são sensíveis ao sol e calor, funcionários da Prefeitura, representantes de Ongs, jovens voluntários e turistas trabalharam exaustivamente durante dois dias para resgatar o máximo de caranguejos e devolvê-los ao manguezal. 
 
Entre novembro e março os caranguejos costumam sair de suas tocas para procriar nas imediações dos manguezais, num ritual conhecido pelos caiçaras como andada. A fuga dos caranguejos em direção às praias é incomum e pode estar associada ao excesso de chuvas que provocou a diminuição da salinidade do manguezal,condição não tolerada pelos animais. Em Itaguaré a praia ficou forrada de caranguejos; não era possível ver a areia. Em Guaratuba o fenômeno se repetiu em menor proporção, pois o manguezal da região recebe uma maior quantidade de água salgada mantendo equilibrado esse ecossistema  para a sobrevivência dos caranguejos, como explicou a Diretoria de Operações Ambientais da Prefeitura.
 

Fuga dos caranguejos registrada em Guaratuba por Cassiano da
Associação Pontal do Costa do Sol

Para ter um parecer técnico sobre o fenômeno, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente consultou um dos grandes especialistas em crustáceos no Brasil, Dr. Marcelo Antonio Amaro Pinheiro, biólogo e professor da Universidade Paulista de São Vicente (Unesp). O professor esteve em Itaguaré para avaliar a situação e coletar alguns caranguejos para análise. Segundo o especialista, a fuga dos caranguejos é rara, porém, natural e resultado de uma somatória de eventos, a exemplo da redução da salinidade dos manguezais e do ritmo lunar. Para o pesquisador o resgate dos animais foi uma medida acertada tomada pelos órgãos públicos locais. 
 
Caranguejo uçá: ´mamãe´ do manguezal 
Quase 70% dos peixes consumidos no mundo dependem dos manguezais para sobreviver e o caranguejo é figura central nesse ecossistema. É ele quem ´prepara´o alimento que irá garantir a sobrevivência de espécies como camarões, robalos, linguados, anchovas e tainhas até atingirem a idade jovem quando nadam em direção aos oceanos.
 
Os caranguejos úça, espécie presente em Bertioga, alimenta-se principalmente de folhas e raízes dos mangues, as quais são trituradas pelos animais. Paralelamente, escavam tuneis e tocas nos manguezais promovendo a oxigenação desses ambientes. Algumas tocas atingem dois metros de profundidade. A trituração dos alimentos e a oxigenação promovidas pelos caranguejos aceleram a decomposição dos resíduos orgânicos quase três vezes mais do que na atmosfera. Uma vez decompostos, os resíduos transformam-se em nutrientes ideais para os filhotes do mar. Também aves como garças, guarás, biguás, fragatas e mamíferos como o mão-pelada e guaxinim dependem do caranguejo para se alimentar.
 
O caranguejo úça é espécie vital para o meio ambiente e de fundamental importância sócio-econômica a maioria dos caiçaras. Além da carne, que é o principal produto de comercialização por essas comunidades, são extraídos dos caranguejos substâncias utilizados na produção de anticoagulantes, cosméticos e adesivos medicinais.  
 
Ucides cordatus é o nome científico do caranguejo úça. Segundo estudos, a palavra cordatus significa com características do coração. 
 
Fonte: Prefeitura de Bertioga; Estudos de G.G. Castilho Westphal da UFPR  e Gustavo Yomar Hattori, Unesp Jaboticabal

 

 
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